Falecimento de Luis Macedo
por Ana Martins

Não posso deixar aqui públicamente de expressar a mágoa que sentimos na Secção de Oceanografia pelo falecimento de um profissional como muito poucos, de um colega sempre atento e solicito a tudo e todos e, mais do que tudo, de um grande amigo que impregnou esta Secção de uma alma muito própria, desde o início.

Há cerca de 6 anos, “herdei” uma Secção de Oceanografia vazia. Uma das primeiras pessoas que me abordou no sentido de passar a integrar uma equipa nova, foi o Luis Macedo. Tinha estado vários anos a trabalhar na Secção de Química e transportava, já consigo, um grande conhecimento sobre técnicas laboratoriais e sobre metodologias de recolha e tratamento de amostras biológicas no âmbito de trabalhos de investigação a decorrer em vários núcleos de trabalho no DOP.

Na Secção de Oceanografia, com calma, um a um, o Luis Macedo tratou de verificar todos os equipamentos, de encontrar peças perdidas, de completar e reparar sensores desfeitos... Um ano e meio depois de trabalho árduo, um laboratório caótico passou a um local de trabalho organizado e limpo.

Estavámos prontos para começar em força. Desde então, foram milhares de peripécias, desde a instalação de uma estação de satélites e de uma estação para medição de aerossóis, à calibração de equipamentos, preparação e realização de cruzeiros e até, às pequenas reparações (UPS, impressoras,...) sempre com a convicção e um acreditar muito forte que tudo se conseguia com calma e paciência. Mais do que tudo, era um verdadeiro Mestre na arte da electrónica, da mecânica, ... Era com carinho que chamava cada equipamento por “tu”, tratava dele meticulosamente e não desistia enquanto não o reparava e o punha funcional e a brilhar.

Apesar da quantidade de trabalho que tinha dentro da Secção, nunca se escusou a ajudar todos os que por que lá passavam para lhe pedir reparações deste ou daquele equipamento ou sensor. E foram muitos os que, ao longo destes anos, solicitaram os seus serviços. Da minha parte, foi um prazer e uma honra, trabalhar com aquele que, alguém um dia na NASA, me disse: - “Agarrem bem o Sr. Macedo porque senão nós vamos buscá-lo! Ele conseguiu o que mais ninguém conseguiu! Manter ad eterno um fotómetro solar antigo a funcionar quando em todas as outras estações que temos por esse Mundo fora, avariaram! Pelos vistos, não estamos a conseguir avariá-lo para substituição por um mais recente na vossa estação. Passa a vida a ser reparado e bem! Decididamente depois de conhecer o Sr. Macedo, já percebo porquê!” E esta capacidade natural era reconhecida por tantas outras equipas/empresas nacionais e internacionais com quem trabalhámos...

A notícia do falecimento foi um choque,... muito duro. Ainda parece tudo irreal, apenas um pesadelo do qual vamos todos acordar em breve...

Neste momento não há mais palavras para exprimir a dor, a emoção, a mágoa, a perplexidade e o quão, dentro de uma pequena Secção, o teu lugar, agora vazio, vai ser sentido, todos os dias, ...fisica, profissional e emocionalmente.

Mas a lição de perseverança, o acreditar que tudo se realiza, a sabedoria que sempre nos transmitiste e a alegria e humor com que sempre nos brindaste JAMAIS será esquecida. Para sempre, estarás no nosso coração Luis e nunca deixarás de fazer parte da história do DOP e, em especial, desta pequena Secção que contigo recomeçou de novo, e a quem tudo deste sem pedir nunca nada em troca...

As nossa sinceras e muito sentidas condolências à familia do Luis Macedo.

A Universidade dos Açores está de luto
Por Eduardo Isidro

Ontem, dia 16, o nosso colega e amigo Luís Manuel C. Macedo, faleceu subitamente.
O Luís começou a trabalhar no DOP em 1978, como Técnico Profissional,
pelo que foi um dos "fundadores" desta casa.

Porque ele partiu tão repentinamente,
se é que partiu mesmo,
é-nos muito difícil,
conjugar o verbo no passado,
e falar sobre quem ele era e o que fez.
Só nos ocorre dizer, para já,
que iremos certamente sentir muito a sua falta.


O nosso Amigo Luís Macedo
Por Aline Despres e Frederico Cardigos

Conheci o Sr. Luís Macedo quando há uns anos atrás cheguei à Ilha Azul como estagiário. Pude assistir no campo profissional a um técnico de electrónica dedicado, metódico e extraordinariamente conceituado. Apenas isso explica que um técnico de laboratório, de uma instituição perdida no meio do Oceano Atlântico, fosse repetidamente convidado a participar em importantes missões científicas internacionais. O Sr. Luís Macedo merecia o respeito das chefias e dos colegas dentro e fora de portas. A coordenadora da sua Secção, a Professora Ana Martins, tinha uma confiança total no tratamento que o Sr. Luís dava a equipamentos que, literalmente, valem milhões de euros. A responsabilidade que o Sr. Luís Macedo tinha entre mãos era ainda mais elevada porque, caso os equipamentos se avariassem, a sua Secção ficaria sem dados oceanográficos para trabalhar. Como a competência resolve quase tudo, isso nunca aconteceu.
Lembro-me das inúmeras vezes que, enquanto biólogo marinho do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, o fui visitar ao seu laboratório com um qualquer instrumento electrónico e ele, com mãos mágicas, os abria, pacientemente observava e, depois de pensar, vaticinava o seu futuro, que algumas vezes passava pelo vazadouro da Ilha do Faial… Por muito que eu alegasse que “tinha tão bom aspecto” ou suplicasse que “acabamos de o comprar”, depois de ter analisado, as palavras do Sr. Luís Macedo eram certeiras. Na maioria das vezes, felizmente, as mesmas mãos mágicas pegavam no multímetro, injectavam num qualquer spray misterioso ou apertavam um parafuso escondido e a luz fazia-se. Tantos sarilhos de que ele me livrou…
Com o Sr. Luís Macedo aprendi diversas coisas. Entre elas, talvez as mais importantes tenham sido a importância da organização e que estamos sempre a tempo de ser felizes.
As três grandes Revistas do Grupo de Teatro Carrocel contaram sempre com as tais mãos mágicas, mas, neste caso, sobre o teclado do sintetizador em que dava colorido às músicas ou ideias do Sérgio Luís, do Vítor Rui Dores e outros. As gargalhadas que milhares de pessoas deram no Teatro Faialense tinham o acompanhamento musical do Sr. Luís Macedo. As coreografias das bailarinas alunas do Conservatório Regional da Horta tiveram o ritmo e o compasso que aquele senhor calmo lhes dava. Para além disso, o Sr. Luís Macedo ainda tocava órgão na igreja das Angústias e fazia parte da Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Horta. Agora ficamos mais tristes, o Faial ficou mais triste.
A sua última missão de mar terminou no dia 15 de Março, a sua última actuação foi no dia 16 e às zero horas do dia 17 recebemos o telefonema com a triste notícia. O Sr. Luís Macedo, ao longo dos anos, ganhou um enorme prestígio tanto do ponto de vista profissional como do ponto de vista artístico. Este prestígio era ainda crescente quando, inesperadamente, perdeu a vida. Esse facto faz-nos pensar onde poderia chegar caso a vida não lhe tivesse pregado esta partida? Quem partilhou o espaço e o tempo com o Sr. Luís Macedo pode ser considerado um privilegiado. Neste mundo de correrias, em que muitas vezes andamos depressa para sítio nenhum, é bom pararmos nestes momentos e usufruir da boa memória com que as pessoas dignas nos deixam.