Se eu morrer novo,
sem poder publicar livro nenhum
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.


Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.


Alberto Caeiro, 7-11-1915

Não morre, para si próprio nem para nós, o que viveu para a ideia e pela
ideia, não é mais existente, para o que se soube desprender da ilusão, o
que lhe fere os ouvidos e os olhos do que o puro entender que apenas se lhe
apresenta em pensamento; e tanto mais alto subiremos quando menos
considerarmos a morte como um enigma ou um fantasma quanto mais a olharmos
como uma forma entre as formas.

Agostinho da Silva, in Textos e Ensaios Filosóficos I